Memórias
Que fizemos dos comboios da nossa infância? E dos sonhos
que não construímos?
Que fizemos das dúvidas que não perguntámos? E das queixas
que não ouvimos?
Que fizemos das palavras e dos amigos que esquecemos? E das certezas
que nunca tivemos?
E n t r o n c a m e n t o
Grito o teu nome junto às linhas das nossas vogais
E o tempo que era ontem já o não encontro mais
Mas pressinto-o no regaço dos tempos de insónia
Frente à janela de onde vejo as luzes da cidade
E a aldeia da minha memória
Deixa-me agora falar-te do voo das garças
Das viagens de fumo e fogo o calor dos corpos
A paisagem e o apito Uuúuu! Uuúuu! Pouca terra Pouca terra
Tactear o teu silêncio e soletrar a tua alegria
No paul húmido do teu inquieto olhar
A poesia nasce faz-se entre as marés dos dias
Com o néctar das palavras nas manhãs de todas as noites
Ei-la que brota dos corpos arco-íris de todos os sentidos
E o velho maquinista sentado no banco do jardim
Descansa frente à velha locomotiva ali estacionada
Com o olhar perdido nas suas lembranças
E a lágrima furtiva a rolar pelas linhas da face
Já sem palavras para usar de tão gastas que estão
Sorri com sinceridade enquanto os olhos sonham
Com o brinquedo da sua infância
Com a companheira da sua vida
Ah, como é verdadeira a ternura furtiva nos gestos de cada olhar
[Autor: Martinho Branco - 1º Lugar - Poesia - Jogos Florais do Entroncamento de1995 - Câmara Municipal do Entroncamento]
[Créditos - Locomotiva a vapor 094 - Jardim do Centro de Dia - Entroncamento, em 07/08/2003.
Photo Jean-Pierre Vergez-Larrouy (jean-pierre.vergez@tele2.fr) ,
in http://www.railfaneurope.net/pix/pt/steam/misc/pix.html]